O ranger do metal ecoa pelo
pequeno parque. Um balanço, um brinquedo de ferro para crianças escalarem e uma
caixa de areia no centro do que parece ser um conjunto de prédios que formam um
condomínio de periferia. O som, que arrebata Eileen, ecoa por todo o lugar,
como se alguém impulsionasse o balanço para que ele fizesse sua parábola. Ela
olha em volta e percebe tudo, como se o véu que protege o mundo dos espíritos caísse
diante de seus olhos. Um outro mundo, escondido pelo véu imposto pela
descrença, mas que Eileen conseguia vazar com sua visão e enxergar para além
daqueles prédios cinzas e ruas silenciosas.
A Tellurian revela aquilo
que, em verdade, está escondendo-se por detrás da película, e o que se mostra,
aos olhos dos adormecidos, ser um prédio residencial, revela-se como o que
parece ser um hospital em cujo playground
uma menina balança-se ininterruptamente. As correntes no balanço dão lugar a
arames farpados que rasgam suas mãos, mas ela não parece se incomodar. Olha,
com o cabelo negro a cobrir parcialmente seu rosto, para a areia aos seus pés e
deixa escorrer um filete de sangue de suas mãos que deslizam pelo arame.
Um rádio, com um som
impreciso como se buscasse uma sintonia mais fina, vomita uma música que soa
como se viesse da década de 50, rasgando o silêncio frio e sombrio da noite. A
garota caminha rapidamente na direção de Eileen e toca sua mão, fazendo-a
tremer de medo. Aparentando não ter mais do que quatorze anos, a menina a puxa,
correndo para dentro da construção diante delas. Está escrito no topo da porta
de entrada: Hospital San Jose. “Precisamos nos esconder dele. Ele não pode
saber que você está aqui.”. Ela puxa Eileen pela mão em direção ao saguão de
entrada do hospital.
Na recepção, uma enfermeira,
trajando roupas que parecem trazidas pela música que ecoa no ambiente, está no
balcão para registrar todos os que entram pela porta. Ao vê-la, o medo toma
conta da alma de Eileen: a enfermeira está com os braços no balcão grudados por
grampos enormes na sua pele e suas órbitas vazias, como se os olhos lhe
tivessem sido arrancados, sangram, cobrindo-lhe de rubro o rosto.
Eileen deixa-se levar pela
menina, mas observa, incrédula, que a enfermeira as recebe com um sorriso
macabro. No livro diante dela consta seu nome. “Como pode ter meu nome neste
livro?! Que lugar é esse?!”, pensa, enquanto passa por uma porta que leva a um
corredor comprido e entra em uma sala que lembra uma pequena enfermaria. A
garota se esconde atrás de uma cama e a puxa para esconder-se junto. “Quem é
você, menina?”. Em resposta apenas o dedo diante dos lábios, pedindo silêncio.
“Shhhiiii! Ele pode nos ouvir.”, a garota fala, olhando por cima de uma das
camas amontoadas que serve de esconderijo para as duas. Ambas conseguem
perceber, pela janela de vidro suja da porta da enfermaria, que pelo corredor
passa uma figura sombria, cuja imagem transmite uma mistura de sentimentos que
transitam entre o medo terrível e a tristeza mórbida.
Eileen levanta-se e suspira
fundo enquanto caminha em direção à porta que leva ao corredor onde a figura
sinistra havia passado. “Onde você vai?! Ele pode te ouvir! Ele vai te ver!”,
protesta apavorada a garota, mas ela a ignora. Ela sabe que tem de sair dali,
apesar de não saber ainda como faria isso, pois precisava confrontar seus
medos.
O corredor está silencioso,
frio e escuro, a aparência do hospital começa a entrar em decadência e toda a
degradação, sujeira e melancolia se desvelam diante dos olhos despertos de
Eileen. Sua vontade faz toda a podridão do lugar aparecer diante dela e, por instantes,
o medo toma conta de sua mente. “Deuses... e se eu não conseguir sair daqui? ...
Não. Não posso fraquejar. Deem-me forças!”, pensa em silêncio enquanto sua mão
escorrega para dentro de sua bolsa de tecido, colorida como seu vestido em
arabescos e miríades de cores que contrastam com o ambiente à sua volta. Seus
longos cabelos negros caem sobre seus ombros cansados pela opressão espiritual
do lugar, mas Eileen sente que, se fraquejar agora, jamais sairá dali.
Ela tira da bolsa seu baralho
de tarô, presente de sua avó, e o segura firme ao peito. Um calor irrompe por
todo seu corpo e a reconforta por preciosos segundos, fazendo seu pensamento
livrar-se da angústia e enxergar além da penúria do lugar. Diante dela surge
uma silhueta, coberta por panos esvoaçantes, como um espectro formado por
tecidos transparentes e de cores vibrantes. Aquela figura, por mais estranha
que parecesse, aquece seu coração e dá forças ao seu espírito para enfrentar o
que quer que esteja guardado para ela naquele lugar. Eileen dá dois passos em
direção à figura, que apenas lhe estende a mão, como num chamado para que
continue, surgindo, nesse instante, uma conexão muito forte que ela não
consegue explicar, apenas sentir.
De súbito, a garota toca em
seu ombro e a tira do transe. O toque da menina revela-se como algo gélido e
tenebroso, e seu olhar não é mais de uma garota indefesa, perseguida por algo
ainda não revelado.
Eileen sente, de uma forma
que vai além do toque físico, que aquela garota a prendeu ali e a estava
manipulando para se enterrar mais ainda na loucura e desespero que se
manifestava na forma daquele lugar sinistro. Contudo, as intenções da garota
não podiam se esconder de tudo aquilo que estava acima e abaixo, pois a ligação
de Eileen com essas forças estava cada vez mais intensa, além da compreensão de
um espírito adormecido. Ela despertara, mesmo sem saber o que isso significasse
para sua vida e seu espírito.
Eileen afasta-se da garota e
arremessa o tarô em sua direção. As cartas voam, levadas por um vento repentino,
e giram em torno de si, formando uma parede intransponível para qualquer fonte
de maldade vinda do lugar. A menina se afasta e seu rosto se desfigura em um
misto de desespero, tristeza e ódio. Tudo em volta some e Eileen se vê no mesmo
corredor que leva à enfermaria, mas em um outro momento, como se seu espírito
rompesse as barreiras do tempo. Estava
sentada em uma cadeira de rodas, com amarras em seus pulsos, sendo empurrada
pela mesma enfermeira da recepção do hospital, porém, esta era uma bela moça na
casa dos vinte anos, sem a decadência e desfiguração que ainda não a haviam
tocado.
Diante delas, havia um
médico, aparentando uns cinquenta anos, que parecia estar a sua espera. Ele se
dirige a Eileen como se falasse com outra pessoa e a chama de Mary. Mary Hillenburg.
“Dr. Hill, foi assim que a enfermeira o chamou”, ela pensa, enquanto a cadeira
é empurrada para longe do médico e a música, a mesma que a recebeu quando entrou
por aquela porta sendo arrastada pela garota, começa a tocar novamente, enchendo
o lugar com sua melancolia. Eileen sabe que precisa se concentrar e presenciar
aquilo para que os véus se dissipem e ela possa enxergar o que aconteceu ali.
Tudo em sua volta começa a escurecer e as imagens são tragadas pelas sombras
que emergem das profundezas daquele lugar esquecido pelos Deuses. O que resta é
a música, sumindo devagar, tragada pelos mistérios daquele lugar maldito.
Eileen acorda em sua cama e
sua respiração ofegante corta o silêncio do quarto. O quarto escuro é a única
testemunha de seu pesadelo; e o vento da noite, que entra sorrateiro pela
janela aberta do dormitório da Universidade de Chicago, é seu único cúmplice.
Ela olha em volta e percebe que sua companheira de quarto, Ingrid, está
dormindo um sono tranquilo. “Céus... será que devo ir àquele lugar e descobrir
o que houve ali?”, ela pensa enquanto levanta-se, caminha para fechar a janela em
cujo vidro está grudada a carta da Papisa, trazida pelo vento, como se olhasse
para seu coração. Ela precisa ir, sua intuição não pode ser ignorada.
Recolhe a carta e a coloca
junto ao tarô que pertenceu à sua vó e que agora, de alguma forma, está
conectando seu espírito a um universo que ela jamais imaginou tocar em outro
lugar além de seus sonhos. Seus passos são decididos. Ela abre a porta.