2 de março de 2016

CONTO 3 - Mago: A Ascensão. Crônica: Lembranças do amanhã.

O ranger do metal ecoa pelo pequeno parque. Um balanço, um brinquedo de ferro para crianças escalarem e uma caixa de areia no centro do que parece ser um conjunto de prédios que formam um condomínio de periferia. O som, que arrebata Eileen, ecoa por todo o lugar, como se alguém impulsionasse o balanço para que ele fizesse sua parábola. Ela olha em volta e percebe tudo, como se o véu que protege o mundo dos espíritos caísse diante de seus olhos. Um outro mundo, escondido pelo véu imposto pela descrença, mas que Eileen conseguia vazar com sua visão e enxergar para além daqueles prédios cinzas e ruas silenciosas.
A Tellurian revela aquilo que, em verdade, está escondendo-se por detrás da película, e o que se mostra, aos olhos dos adormecidos, ser um prédio residencial, revela-se como o que parece ser um hospital em cujo playground uma menina balança-se ininterruptamente. As correntes no balanço dão lugar a arames farpados que rasgam suas mãos, mas ela não parece se incomodar. Olha, com o cabelo negro a cobrir parcialmente seu rosto, para a areia aos seus pés e deixa escorrer um filete de sangue de suas mãos que deslizam pelo arame.
Um rádio, com um som impreciso como se buscasse uma sintonia mais fina, vomita uma música que soa como se viesse da década de 50, rasgando o silêncio frio e sombrio da noite. A garota caminha rapidamente na direção de Eileen e toca sua mão, fazendo-a tremer de medo. Aparentando não ter mais do que quatorze anos, a menina a puxa, correndo para dentro da construção diante delas. Está escrito no topo da porta de entrada: Hospital San Jose. “Precisamos nos esconder dele. Ele não pode saber que você está aqui.”. Ela puxa Eileen pela mão em direção ao saguão de entrada do hospital.
Na recepção, uma enfermeira, trajando roupas que parecem trazidas pela música que ecoa no ambiente, está no balcão para registrar todos os que entram pela porta. Ao vê-la, o medo toma conta da alma de Eileen: a enfermeira está com os braços no balcão grudados por grampos enormes na sua pele e suas órbitas vazias, como se os olhos lhe tivessem sido arrancados, sangram, cobrindo-lhe de rubro o rosto.
Eileen deixa-se levar pela menina, mas observa, incrédula, que a enfermeira as recebe com um sorriso macabro. No livro diante dela consta seu nome. “Como pode ter meu nome neste livro?! Que lugar é esse?!”, pensa, enquanto passa por uma porta que leva a um corredor comprido e entra em uma sala que lembra uma pequena enfermaria. A garota se esconde atrás de uma cama e a puxa para esconder-se junto. “Quem é você, menina?”. Em resposta apenas o dedo diante dos lábios, pedindo silêncio. “Shhhiiii! Ele pode nos ouvir.”, a garota fala, olhando por cima de uma das camas amontoadas que serve de esconderijo para as duas. Ambas conseguem perceber, pela janela de vidro suja da porta da enfermaria, que pelo corredor passa uma figura sombria, cuja imagem transmite uma mistura de sentimentos que transitam entre o medo terrível e a tristeza mórbida.
Eileen levanta-se e suspira fundo enquanto caminha em direção à porta que leva ao corredor onde a figura sinistra havia passado. “Onde você vai?! Ele pode te ouvir! Ele vai te ver!”, protesta apavorada a garota, mas ela a ignora. Ela sabe que tem de sair dali, apesar de não saber ainda como faria isso, pois precisava confrontar seus medos.
O corredor está silencioso, frio e escuro, a aparência do hospital começa a entrar em decadência e toda a degradação, sujeira e melancolia se desvelam diante dos olhos despertos de Eileen. Sua vontade faz toda a podridão do lugar aparecer diante dela e, por instantes, o medo toma conta de sua mente. “Deuses... e se eu não conseguir sair daqui? ... Não. Não posso fraquejar. Deem-me forças!”, pensa em silêncio enquanto sua mão escorrega para dentro de sua bolsa de tecido, colorida como seu vestido em arabescos e miríades de cores que contrastam com o ambiente à sua volta. Seus longos cabelos negros caem sobre seus ombros cansados pela opressão espiritual do lugar, mas Eileen sente que, se fraquejar agora, jamais sairá dali.
Ela tira da bolsa seu baralho de tarô, presente de sua avó, e o segura firme ao peito. Um calor irrompe por todo seu corpo e a reconforta por preciosos segundos, fazendo seu pensamento livrar-se da angústia e enxergar além da penúria do lugar. Diante dela surge uma silhueta, coberta por panos esvoaçantes, como um espectro formado por tecidos transparentes e de cores vibrantes. Aquela figura, por mais estranha que parecesse, aquece seu coração e dá forças ao seu espírito para enfrentar o que quer que esteja guardado para ela naquele lugar. Eileen dá dois passos em direção à figura, que apenas lhe estende a mão, como num chamado para que continue, surgindo, nesse instante, uma conexão muito forte que ela não consegue explicar, apenas sentir.
De súbito, a garota toca em seu ombro e a tira do transe. O toque da menina revela-se como algo gélido e tenebroso, e seu olhar não é mais de uma garota indefesa, perseguida por algo ainda não revelado.
Eileen sente, de uma forma que vai além do toque físico, que aquela garota a prendeu ali e a estava manipulando para se enterrar mais ainda na loucura e desespero que se manifestava na forma daquele lugar sinistro. Contudo, as intenções da garota não podiam se esconder de tudo aquilo que estava acima e abaixo, pois a ligação de Eileen com essas forças estava cada vez mais intensa, além da compreensão de um espírito adormecido. Ela despertara, mesmo sem saber o que isso significasse para sua vida e seu espírito.
Eileen afasta-se da garota e arremessa o tarô em sua direção. As cartas voam, levadas por um vento repentino, e giram em torno de si, formando uma parede intransponível para qualquer fonte de maldade vinda do lugar. A menina se afasta e seu rosto se desfigura em um misto de desespero, tristeza e ódio. Tudo em volta some e Eileen se vê no mesmo corredor que leva à enfermaria, mas em um outro momento, como se seu espírito rompesse as barreiras do tempo. Estava sentada em uma cadeira de rodas, com amarras em seus pulsos, sendo empurrada pela mesma enfermeira da recepção do hospital, porém, esta era uma bela moça na casa dos vinte anos, sem a decadência e desfiguração que ainda não a haviam tocado.
Diante delas, havia um médico, aparentando uns cinquenta anos, que parecia estar a sua espera. Ele se dirige a Eileen como se falasse com outra pessoa e a chama de Mary. Mary Hillenburg. “Dr. Hill, foi assim que a enfermeira o chamou”, ela pensa, enquanto a cadeira é empurrada para longe do médico e a música, a mesma que a recebeu quando entrou por aquela porta sendo arrastada pela garota, começa a tocar novamente, enchendo o lugar com sua melancolia. Eileen sabe que precisa se concentrar e presenciar aquilo para que os véus se dissipem e ela possa enxergar o que aconteceu ali. Tudo em sua volta começa a escurecer e as imagens são tragadas pelas sombras que emergem das profundezas daquele lugar esquecido pelos Deuses. O que resta é a música, sumindo devagar, tragada pelos mistérios daquele lugar maldito.
Eileen acorda em sua cama e sua respiração ofegante corta o silêncio do quarto. O quarto escuro é a única testemunha de seu pesadelo; e o vento da noite, que entra sorrateiro pela janela aberta do dormitório da Universidade de Chicago, é seu único cúmplice. Ela olha em volta e percebe que sua companheira de quarto, Ingrid, está dormindo um sono tranquilo. “Céus... será que devo ir àquele lugar e descobrir o que houve ali?”, ela pensa enquanto levanta-se, caminha para fechar a janela em cujo vidro está grudada a carta da Papisa, trazida pelo vento, como se olhasse para seu coração. Ela precisa ir, sua intuição não pode ser ignorada.
Recolhe a carta e a coloca junto ao tarô que pertenceu à sua vó e que agora, de alguma forma, está conectando seu espírito a um universo que ela jamais imaginou tocar em outro lugar além de seus sonhos. Seus passos são decididos. Ela abre a porta.


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