29 de fevereiro de 2016

Narrativa Épica e o Hobbit.

Desde os primórdios a necessidade de comunicação era uma coisa inerente ao homem. Os homens primitivos saiam em suas caçadas e se deparavam com um mundo hostil e cheio de mistérios a serem desbravados. Esta visão de mundo passou a suscitar em nossos antepassados o desejo de expressar suas experiências, bem como contar suas histórias. Podemos imaginar estes homens, sentados em volta de fogueiras, tentando seja através de gestos, desenhos ou, posteriormente, da língua falada, passar estas histórias para seus iguais. Este impulso primeiro em contar e guardar seus feitos para posteridade coloca a semente das narrativas épicas nas descrições e no imaginário do homem.
Etimologicamente, a palavra “Épico” vem do grego “epos” ou “épikos” e possui vários significados como poemas, recitação e versos. Extrai de uma das formas mais remotas de comunicação humana a vontade de tornar memoráveis seus feitos em suas histórias. A narrativa épica caracteriza-se como uma narrativa de assunto ilustre, sublime, solene, contendo acontecimentos históricos reais, lendários ou mitológicos ocorridos a muito tempo, de heróis de superior força física e/ou psíquica, embora de constituição simples, cujas façanhas simbolizam as grandezas de todo um povo. O gênero épico, portanto é uma narrativa que apresenta um episódio heróico da história de um povo, não necessariamente contando toda sua história, mas ressaltando seus valores e os simbolizando em seus feitos e buscas. O professor Massaud Moisés, em seu livro “A Criação Literária” diz que

A poesia épica tradicional (...) servia de espelho onde se refletiam as representações, anseios e aspirações dos povos, carentes de alimento para a sensibilidade e a imaginação: a contemplação da beleza heróica ofertava-lhes as respostas esperadas.”
MOISÉS, Massaud. A Criação Literária.

Estas respostas são exatamente o que podemos ilustrar como a busca dos anões na obra “O Hobbit” de J.R.R. Tolkien, onde eles cantam as glórias de um povo há muito sem uma identidade, um lar, enaltecendo o caminho percorrido pelos heróis deste povo sem uma terra para chamar de sua. O caminho para a redenção de toda uma raça estava bloqueado pelo grande dragão Smaug, uma das maiores calamidades da Terra-Média naqueles dias, e a coragem de daquele pequeno grupo de anões deveria ser o suficiente para derrotar o terrível inimigo.
A presença do mago Gandalf, ou “Mithrandir” ([miˈθrandir]), na língua dos elfos, que significa “Peregrino Cinzento”, também nos leva a enxergar um traço da escrita épica, onde o chamado "maravilhoso", isto é, a intervenção direta, na narrativa, de seres com poderes sobre-humanos ou sobrenaturais, é comumente encontrada nos textos. No épico pagão encontramos geralmente a intervenção do elemento divino, ligado a mitologia greco-romana, mas também podemos observar a intervenção do divino na mitologia judaico-cristã, e em suas narrativas bíblicas. Gandalf aqui é o elemento dissonante em termos de capacidades, com grandes poderes mágicos, e está presente agindo muitas vezes de forma direta, mas também sumindo em diversos momentos forçando os heróis a superação de grandes dificuldades sem a sua ajuda.
O herói neste tipo de narrativa precisa superar seus medos, anseios, vaidades, para se tornar o herói que seu povo aguarda para espelhar-se nele. Thórin Escudo de Carvalho precisa ser o rei que aquele povo perdeu, para trazer de volta a esperança de um reino usurpado pelo terrível Smaug, e simbolicamente sua busca é a busca de todos os membros de sua raça e seus objetivos também são comuns: Encontrar-se, lembrar-se de sua grandeza e restituir o que lhes pertence.
Sobre suas costas recaem todas as esperanças de sua raça e ele deve manter-se digno em seu discernimento. Por mais que isso não aconteça durante boa parte do livro, após recuperar seu tesouro, ele finalmente encontra redenção e o perdão em sua morte. Os atos heróicos perpetuados por este herói jamais serão esquecidos e seus feitos serão lembrados por gerações e gerações. Este é o objetivo primeiro de uma narrativa épica, tornar os heróis eternos. Quando Tolkien descreve a morte de Thórin, é quase impossível não perceber o que aquilo representou... Redenção. Não apenas dele, mas de todo o seu povo.
Nas palavras do autor, Thórin se vai e

“Sobre seu túmulo o Rei Élfico depositou então Orcrist, a espada élfica que foi tomada de Thórin no cativeiro. Contam as canções que ela brilhava a escuridão quando os inimigos se aproximavam, e a fortaleza dos anões não podia ser pega de surpresa.”
TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. Pág 283

O Rei dos anões, mesmo tombando em batalha, jamais será esquecido, e sua jornada, será lembrada por todos os membros de sua raça como o momento que os anões retomaram para si o reino sob a Montanha Solitária, a custo de muito sangue derramado e lágrimas vertidas. E este, certamente, seria um grande conto épico da terra de Erebor.

25 de fevereiro de 2016

CONTO 2 - Mago: A Ascensão. Crônica: Lembranças do amanhã.

O vento sopra agitando as areias e traz o gélido hálito noturno do deserto para dentro do quarto. Ela está deitada ao seu lado, e sua beleza é como uma miragem vinda de um mundo onde os sonhos podem ser tocados.  Sua respiração é perene e seus braços envolvem os tecidos sobre o colchão e o apertam forte junto ao rosto, buscando reter os últimos aromas do ninho de amor que foi aquela cama. Os véus da sacada balançam acalantados pelo sopro do vento frio da noite.
Ela dorme. Incauta.
Yamanu está sentado na cadeira ao lado da cama, apenas olhando para sua amada. “Falta pouco para que eles entrem por aquela porta. Posso sentir.”. Ele pensa enquanto observa os véus que separam o quarto da varanda em sua dança flutuante, deslizando pelo ambiente em uma miríade de cores e transparências. Mais cedo eles se encontraram neste mesmo quarto e se amaram como se fosse a última vez, como se não houvesse nada que pudesse evitar que o tempo os distanciasse, mas que aquele último momento iria ficar marcado em suas almas por toda a eternidade.
Ele sabe que o espírito de sua amada é antigo, mas ela não. Ela vive apenas essa vida, respira cada momento como se fosse o derradeiro e ao mesmo tempo o primeiro, mas pelo menos é feliz naquele momento de maneira plena, sem saber que havia sido escolhida em outra vida. Em uma que foi vivida tão plenamente quanto essa. E foi amada tão intensamente como agora. Ela dorme agora como seu espírito que ainda adormece.
Por dias e noites ele perambulou, por este e outros mundos, buscando entender o destino de sua amada, desvelar a vontade dos Deuses, e não conseguiu encontrar nada além do deserto com suas areias escaldantes durante o dia e gélidas durante a noite.  Um deserto que se estende pelos seus sonhos e cobre suas esperanças. Como pode um ser enganar Anúbis1 durante tanto tempo? Como ainda não foi tragada e devorada por Ammut2?
Yamanu não encontrou respostas, nem neste mundo, nem em outro. Nem em seus sonhos ou pesadelos. Não é digno de que os Deuses lhe respondam, pelo menos não ainda. Ele se lembra desse mesmo momento, perdido nas areias do tempo, em algum lugar do Egito antigo, há mais de mil anos.
Mil anos se passaram e seu espírito despertou novamente, ouvindo o chamado de seu amor que cruzou gigantescos desertos de solidão para encarnar outra vez. Agora seu nome era Hasan, mas ao vê-la, caminhando pelas feiras movimentadas, carregando uma cesta de tecidos, seu Avatar sussurrou em seu ouvido: Yamanu. Este seria seu nome daquele dia em diante, como fora antes quando se encontraram no cálido deserto, entre as tendas da caravana de mercadores. Seu nome em uma época esquecida, perdida entre o sonho e a realidade.
Ele se levanta e caminha até a sacada. Vestindo apenas uma calça branca e sandálias de couro, seu corpo negro brilha ao toque da luz tênue de uma lua minguante. Até mesmo a lua fechou-se para não incomodar os amantes e para não ser testemunha do que está por vir. Sua amada vira-se de lado na cama e fita o colosso de ébano parado na sacada, olhando para o deserto ao longe. A pequena cidade lá fora, com suas construções de pedras erguidas pelos homens, está silenciosa. “O que houve, meu amor? Por que não volta para a cama?”, ela pergunta e sua voz soa como um ronronar, enchendo o quarto e o espírito de Yamanu. Ele a olha por instantes. “Porque preciso estar pronto para quando eles entrarem por aquela porta e tentarem levar você de mim para sempre.”. Seu pensamento não ousa sair como palavras pela sua boca, amaldiçoando aquele momento que deve ter a benção de Hator3.
Ao invés disso, ele encara seus negros olhos. “Levante-se, meu amor, precisamos ir.”. As palavras saem de sua boca, mas sua mente divide-se entre o quarto e as ruas da cidade. Sua consciência viaja por todos os cantos entre eles e o que está a sua captura pelas ruas. Durante dias ele evitou a presença de seus perseguidores, há muito vem tentando se esquivar de suas garras, mas agora não havia mais como fugir, nem para onde ir, pois estavam cercados. Era apenas uma questão de tempo. A porta diante deles iria se abrir e libertar para dentro do quarto os enviados de Jahannum4, maculando o sagrado ninho de amor dos dois.
Ela se veste devagar, suas roupas deslizam pelo corpo macio e cálido, mesmo com o vento noturno a banhar sua pele aquecida pela vontade de Yamanu, que não permite que seu corpo esfrie junto com a noite que avança agourenta. As pedras, aos olhos adormecidos, apenas negras opalas colocadas na entrada do quarto e nas janelas, denunciam o perigo que se aproxima. Ele saca sua cimitarra e se interpõe à porta. Sua lâmina reluz ao ser tocada pela escassa luz da lua minguante que hesita em testemunhar seus destinos. Ela se assusta e olha para ele como em uma súplica para que o momento pare diante de seus olhos e que o tempo possa voltar para o instante em que se amavam, mas aquele momento está eternamente perdido, em meio ao turbilhão de Isfret5.
A porta abre-se de súbito. Entram cinco homens, trajando turbantes e túnicas negras como o reflexo de suas almas, espadas em punho em direção aos amantes. Yamanu faz sua cimitarra dançar e desfila como o vento entre seus agressores. Os cortes fazem com que os inimigos rodopiem, acompanhando a dança da espada que viaja precisa por seus corpos e raspa caprichosamente pelas lâminas que buscam em vão defendê-los da morte certa, fazendo do som de tilintar de metais a melodia que os acompanhará para o esquecimento. O sangue jorra dos corpos e lava as cortinas, que dançam levadas pelo vento.
Tudo parece um segundo. Um momento de transe que é despertado pelo grito que enche o quarto.
Yamanu olha para trás enquanto os cincos homens tombam com suas vidas ceifadas pelo fio de sua cimitarra. Diante de seus olhos incrédulos está sua amada, carregada pelos braços daquele que habita seus pesadelos. O arauto de seu desespero. O enviado daquela que ele não pode sequer pronunciar o nome sem que sua alma estremeça de angústia e incerteza. Ela o enviou para tomá-la de mim novamente, como uma repetição de um pesadelo que não cessa. Diante dele está aquele homem, magro, muito alto, albino como a neve que nunca tocou o deserto, quase em afronta aos Deuses que o esqueceram. Usa calças e botas pretas. Seu tórax desnudo é adornado por uma pintura vermelha como sangue que forma runas profanas, presentes também em sua fronte. Em sua cabeça, nenhum sinal de cabelo.
O homem ergue nos braços a amada de Yamanu. Ela esperneia inutilmente, com a mão estendida em súplica. “Socorro! Não deixe que me levem, por favor! Eu te amo, meu amor! Eu te amo!”, grita a plenos pulmões. “Não!”. O grito dele, em resposta, ecoa na noite. O maldito homem olha para ele e salta da sacada.
Yamanu corre na direção deles. Suas lágrimas misturam-se às gotas de sangue que caem de sua cimitarra e ao rubro néctar que banhou as cortinas, expelido pelas feridas abertas dos homens tombados no quarto. “Será tarde demais? Por favor, não me deixe de novo...”. Ele pensa, fitando a noite vazia, e grita em desespero. Um grito que ultrapassa as areias do tempo e faz com que Gregory acorde.

***

Gregory está só no laboratório do museu de Chicago. A luz de sua luminária é a única que ilumina o ambiente. Sua mesa está coberta por livros sobre escrita hieroglífica e sobre o Egito antigo, onde ele, um jovem estudante, doutorando em Egiptologia, busca respostas. Ele sabe que este sonho que se repete há várias noites é um sinal. Uma mensagem do seu Avatar. “Mas o que quer me dizer?”, Gregory pensa, mas não existe resposta ainda.
Mais adiante, sobre a principal mesa de pesquisa, jaz a múmia, recém-descoberta em uma expedição arqueológica, que foi trazida para Chicago e deixada sob os cuidados de seu professor orientador, e maior autoridade em Egiptologia dos Estados Unidos, Dr. Yuri Gardner. Uma intrigante múmia trespassada por uma estaca ritualística diretamente em seu coração. Uma estaca, coberta de runas, que tem tirado o sono de Gregory e de sua colega de estudos, Marcie.
 “Nossa, já passam da meia noite! Preciso descansar.”, pensa, enquanto lança um último olhar para a múmia em seu moribundo sono, banhada parcamente pela luz de sua luminária. Ele apaga a luz e caminha pelo laboratório escuro, indo em direção à porta de saída, tomado pelas incertezas de uma jornada que está apenas no seu início. Uma jornada pelas areias do tempo, seguindo pegadas trilhadas há muito pelo seu espírito.

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Glossário:
  
1Anúbis - Deus Egípcio dos Mortos.

2Ammut - Divindade egípcia que devorava os espíritos daqueles que mentissem em seu julgamento final.

3Hator – Divindade Egípcia que personifica o amor e a beleza.

4Jahannum - Como os Ahl-i-Batin chamam o Inferno.


5Isfret - Forma como os Ahl-i-Batin se referem ao Caos.

23 de fevereiro de 2016

CONTO 1 - Mago: A Ascensão. Crônica: Lembranças do amanhã.

Ele abre a porta do quarto cautelosamente, revelando diante de seus olhos um ambiente escuro onde apenas a luz da lua passa por entre as brechas das persianas, iluminando parcamente o espaço a sua frente. Ele sabe que, em algum lugar, aquilo está à espreita. Sorrateiro, agressivo, letal.
Jack entra devagar. Sua mão segura firmemente sua navalha embebida pela energia Vac¹. Atravessa seus pensamentos, como em um turbilhão, tudo que ele passou até aquele momento. A conversa com Diane, os dois homens que a ameaçavam, a garota morta. Em algum momento da noite, ele decidiu ir até o apartamento de sua amiga e saber como ela estava, se seu irmão estava bem, se ele poderia ajudar.
Diane era uma boa amiga. Eles se conheceram há quase um ano, logo quando ele chegou em Chicago, e juntos faziam parte de um grupo que ajudava moradores de rua. Todas as noites eles se reuniam em um pequeno ginásio do bairro para distribuir sopa, pão e agasalhos para aqueles que nada possuíam. Diane era morena, estatura mediana, cabelos longos e negros, com feições tipicamente mexicanas, sempre alegre e com um belo sorriso no rosto. Mas Jack havia percebido que seu sorriso desaparecera há alguns meses. Ela sempre evitava falar sobre o que a incomodava, desconversava, até que, em uma noite de trabalho, ela foi chamada para conversar fora do ginásio por dois homens estranhos. Ela saiu para conversar com eles e nenhum dos três notou que Jack os seguiu e presenciou tudo: a conversa em tom de ameaça ao irmão de Diane; a questão do dinheiro; até mesmo o tapa, desferido por um deles, no rosto dela, que fez o sangue de Jack ferver por um instante. “Covardes!”, pensou em silêncio enquanto os agressores se afastavam de sua amiga em prantos.
Ela se recompôs e voltou para o ginásio decidida a ir embora. Jack lhe ofereceu uma carona e ela aceitou, apesar de hesitante. Subiram na moto e se foram. Ele podia sentir o vento em seus longos cabelos castanhos, apenas um pouco cobertos por seu capacete. Sua blusa e casaco pretos e sua calça jeans cortavam o vento a sua volta. A moto era sua companheira há quase quatro anos, desde que ele decidiu que não iria usufruir do dinheiro que cobria a lama que era a família Wayland, e muito menos faria parte daquele jogo sujo. Ele seria apenas Jack Paradise, nada mais.
Tomaram umas cervejas ao pé de seu apartamento, conversaram um pouco. Por alguns minutos, ela voltou a sorrir, parecia ter esquecido do que a afligia, mas logo se despediu dele e entrou no prédio. Parecia que a realidade havia a chamado de volta. Ele foi embora, mas algo o fez regressar. Jack dirigiu sua moto por alguns quilômetros, mas voltou.
Ele não sabia explicar, não naquele momento, mas sentia algo o chamando para o apartamento dela. Diane precisava de ajuda, ele sentia mesmo sem saber totalmente que estava enxergando a Roda do Destino girar. Talvez ele pudesse fazer alguma coisa. Por isso, voltou ao apartamento. Talvez apenas um pouco mais de uma boa conversa e um ombro amigo já pudessem ajudar nesse momento de crise. Mas, nem em seus sonhos, ou mesmo em seus piores pesadelos, ele poderia imaginar o que iria acontecer.
Jack se aproximou da porta trancada do prédio. Tocou a maçaneta e forçou um pouco apenas, mas foi o suficiente para que a porta abrisse. “Estava aberta?” Ele subiu os três andares que levavam até o apartamento de Diane. “3B. É esse.” Jack forçou novamente a maçaneta e a fechadura cedeu. “Sou eu quem está abrindo?” Seus pensamentos foram interrompidos pela visão de Diane sentada e chorando no sofá da sala. “Seria algo com seu irmão?”.
“Diane? Você está bem?” Ela o olhou em desespero. Parecia que ele não devia estar ali. “O que você está fazendo aqui, Jack?”
“Eu senti... Não sei explicar. Você não está bem. O que está acontecendo?”
“Vai embora, Jack. Por favor!”. Mesmo com visível desespero, ela sussurrava. Foi quando ela se levantou e, ao mesmo tempo, um barulho vindo dos quartos cortou o tênue silêncio. “O que foi isso, Diane? Seu irmão está bem?”. Ele disse e já se dirigiu para um dos quartos. “Não, Jack, por favor! Não entre aí!”. Diane tentou impedir, mas Jack abriu a porta e o que ele viu gelou sua alma. 
O quarto escondia algo terrível, bestial, que sorvia o sangue de uma garota nua. Quinze anos apenas, mas agora jazia sem vida. O sangue que jorrava forte de sua garganta, e saciava a sede daquela Coisa sobre ela, era o último lampejo de vida que se esvaía da traqueia da garota, triturada pelas presas daquele Ser. O irmão de Diane não passava de uma sombra distorcida daquilo que um dia fora um garoto de dezesseis anos, e agora deleitava-se com o sangue que escorria forte, banhando a cama. Jack arremeteu-se sobre a criatura e puxou a garota para fora. Diane gritava, enquanto seu irmão avançava em desespero para tentar proteger seu alimento, mas Jack, mais ágil do que ele, conseguiu sair com a garota e o trancou no quarto. Só não esperava que aquilo fosse acontecer.  
O corte no pescoço foi fundo, de uma ponta a outra, e abriu o sorriso da morte abaixo do queixo de Jack. Com uma faca na mão, Diane chorava. “Me perdoe...”, ele escutou antes de fechar os olhos, esperando a morte. Mas a morte não veio. Ele abriu os olhos e viu que o Destino guardava mais coisas para ele. As suas cortinas não se fechariam ali, não daquele jeito. Um instante pareceu muitas horas em suas lembranças. “O hospital... a garota do balanço... um homem com uma túnica branca. Mas isso deve ficar para depois. Agora preciso lidar com este momento. Preciso levantar”.
Jack abriu os olhos novamente e viu que um homem estava lá, ao seu lado, no corredor do apartamento de Diane. “Teria sido ele que me salvou? Ele disse que se chama Hank... Ele disse que Despertei... Disse que eu precisava dar ao irmão dela uma boa morte.”
“Ele está sofrendo, Jack. E trazendo sofrimento. Você precisa libertá-lo.”
Diane voltou da sala em prantos. “Me desculpe, Jack. Eu não sabia o que fazer.”. Ela parecia ignorar a presença de Hank, simplesmente não olhava na direção dele. Jack sabia o que tinha que fazer e, apesar de existirem muitas perguntas a serem respondidas, ele precisava voltar ao quarto. A única coisa que Jack pediu a Hank foi que deixasse Diane fora disso. No mesmo instante, com um leve toque no pescoço dela, Hank a fez desfalecer em seus braços.
E assim Jack volta a abrir a porta. E assim ele deve lidar com aquela besta que espreita do outro lado dessa passagem. O agora é um lampejo na existência, apenas um barco à deriva nas águas do Sat². A navalha está pronta. Em algum lugar o monstro o espreita, e Jack consegue sentir no ar as presas da criatura prontas para rasgar sua carne. Um segundo de silêncio total e, como um trovão que rasga retumbante o som calmo da chuva, a criatura salta em sua direção. Garras em riste. Presas sedentas de sangue. A luz fátua do luar que passa pelas persianas da janela faz com que o monstro se arremeta como uma imagem piscada de frames sobrepondo-se em um filme antigo.
Jack vê tudo devagar, em câmera lenta, suas mãos estão no lugar certo. Seu corpo está na posição certa. A Roda do Destino gira e as coisas sempre irão para seu devido lugar. A navalha sibila no ar e o corte é profundo, preciso, no pescoço do monstro, abrindo o sorriso da morte abaixo de seu queixo. Bebemos o mel e o fel de nossas escolhas e o Destino sempre cobra o seu preço.
A criatura cai. Aquilo que um dia foi o irmão de Diane está inerte, olhando para Jack. As gotas de sangue que caem da navalha misturam-se ao sangue que escorre sem força da garganta do monstro e banha todo o quarto.
Jack afaga os cabelos da criatura que olha para ele incrédula, mas o seu olhar é uma súplica pelo fim. A navalha corta o ar novamente e completa o sorriso da morte no pescoço da besta. Os ossos do pescoço cedem ao frio metal cortante embebida pelo Vac da arma de Jack. A cabeça se separa do corpo maldito que imediatamente se enrijece tragado pelo rigor mortis que há muito deveria ter tomado aquele corpo. Silêncio.
Hank está lá fora na sala com Diane deitada no sofá. Jack vai até ele e arremessa a cabeça da besta aos seus pés. “Você me deve respostas.”, ele diz, fitando o homem alto, loiro, de cabelos na altura dos ombros, que mais parece um dos muitos motoqueiros que ele já encontrou na estrada nestes anos em que ele viaja pelos Estados Unidos, buscando corrigir um Karma que não é só dele. Mas este homem é diferente. Mesmo estando com uma jaqueta de couro preta sobre uma blusa de uma banda country qualquer e uma calça jeans surrada, existe algo a mais nele. Jack consegue sentir vibrando no ar.
“Pegue a garota. Temos muito que conversar”, Hank diz, saindo pela porta que leva ao corredor do prédio.
“Espero que você entenda. Espero que me perdoe. Não existia outra forma”, Jack diz para Diane, enquanto ergue a jovem amiga desacordada em seus braços. O corredor que conduz até a escada por onde Hank acabou de descer se agiganta diante dele. A Roda do Destino girou, não existe mais volta. Ele sai pela porta.

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Glossário:
¹Vac - Energia primordial. Referente à Esfera Primórdio.
²Sat  - Tempo





Trilha sonora para partidas de RPG

RPG é a abreviação de "Roleplaying game", que em português seria "jogo de interpretação de papéis". O jogo consiste em criar um personagem, com a ajuda de um mestre que cria a história, se tornar o personagem central para o desenvolvimento da trama. Normalmente uma partida de RPG é composta de um mestre/narrador, que desenvolve o enredo e é responsável por todos os personagens que não são aqueles controlados pelos jogadores, e por pelo menos um jogador, apesar de alguns mestres preferirem desenvolver a história com mais jogadores. 
O RPG tem como objetivo primeiro a interação lúdica entre os participante, mas existem estudos que mostram seu valor em outros campos de desenvolvimento intelectual e como ferramenta pedagógica, como tenta mostrar a professora Sonia Rodrigues, doutora em literatura pela PUC-Rio, em seu livro "Roleplaying Game e a pedagogia da imaginação no Brasil".
Muitos mestres/narradores de RPG se utilizam de diversos artifícios para possibilitar maior imersão em suas partidas. As possibilidades são muitas, desde preparar o ambiente em que os jogadores se encontram para se divertir, até usar fotos e mapas com imagens para o jogador visualizar melhor onde está, facilitando e potencializando, assim, a descrição. Um destes recursos é a trilha sonora e é sobre ela que iremos falar neste texto, mas antes de falarmos sobre a utilização do som na partida de RPG, vamos falar um pouco sobre a história da trilha sonora no teatro e no cinema.

Trilha sonora no Cinema, breve histórico:
O cinema nunca foi totalmente mudo, havia antes uma dificuldade de sincronizar o som à imagem, mas o som sempre esteve presente. A estranheza que causa a nós, espectadores, uma imagem completamente silenciosa, ou o som dissociado da imagem, pode impossibilitar até mesmo a compreensão do que está sendo visto ou ouvido. Acompanhar imagem sem som é incômodo, e isso não se deve à cultura recente televisiva, remonta de bem antes. Encontramos exemplo disso no teatro Grego clássico, quando as cenas da tragédia grega eram acompanhadas pelos sons dos côros cênicos ou ditirambos. Como afirma o professor Filipe Mattos de Salles, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP:
“O mesmo ocorreu no cinema, desde sua criação pelos irmãos Lumière em 1895. O fato é que o som no cinema sempre foi importante, enfatizando, criando ou até redundando climas narrativos na imagem. No cinema mudo, havia um pianista nas salas de concerto encarregado de criar estes climas nas cenas, improvisando sobre um repertório próprio conforme sentia as imagens, e que geralmente cumpriam uma função meramente ilustrativa. Nas salas mais afortunadas podíamos até encontrar orquestras inteiras tocando, muitas vezes com partituras originais para o filme.”
SALLES, Filipe Mattos. A Origem da Trilha Sonora.

Com o advento do sistema de sonorização no cinema com a famosa máquina VITAPHONE lançada em 1927, foi repensada a função do som nos filmes com a possibilidade não só de utilizar música, mas também diálogos e ruídos. A evolução do som no cinema para encontrar cada vez mais a imersão do espectador e atingir a atmosfera necessária para potencializar a narrativa utiliza-se muitos recursos mas a trilha sonora é fator quase que indispensável para atingir estes objetivos. Muitas vezes é comum que a história e a música tenham ligação inseparável como diz novamente o professor Fillipe Mattos de Salles:
“Então caminham lado a lado, a história e a música (…) Nestes casos o clima é substancialmente bem construído, pois o diretor já sabe como trabalha o compositor antes mesmo da partitura estar completa.”
SALLES, Filipe Mattos. A Origem da Trilha Sonora.

Grandes compositores criaram verdadeiros marcos para o som no cinema, levando fãs do mundo inteiro a lembrar mais facilmente da música do que de imagens do próprio filme. Podemos citar alguns exemplos:
“Psicose”, filme dirigido por Alfred Hitchcock e trilha sonora assinada por Bernard Herrmann:




"Tubarão”, filme de Steven Spielberg e trilha sonora de John Williams:


“Carruagens de Fogo”, direção de Hugh Hudson e trilha assinada por Vangelis:



“2001 – Uma Odisséia no espaço”, direção de Stanley Kubrick e música "Assim falava Zarathustra" de Strauss.



O RPG e o som:

Os mestres/narradores podem sim utilizar o som como forma de ajudar a construir uma atmosfera mais específica e empolgante. É comum que no planejamento da partida o mestre/narrador escute uma música para deixá-lo mais sensível a atmosfera que a cena exige, ajudando os jogadores na imersão do cenário que ele está planejando. Neste momento a criação da cena pode ficar associada a alguma música, e levar esta música para a mesa de jogo é um artifício que pode possibilitar aos jogadores estarem na mesma emoção do mestre/narrador no momento da criação da mesma.
Também é comum a utilização de uma música ambiente para climatizar o cenário e deixar os jogadores envolvidos naquela ação ou cena que está se desenvolvendo. Assim a música torna-se um elemento que ajuda na narrativa e deixa o jogador cada vez mais dentro da cena, assim como acontece no cinema com os espectadores, sendo que aqui o jogador é um elemento ativo na ação, o que torna ainda mais empolgante.

A utilização da trilha sonora nas partidas possibilita uma força a mais na imersão dos jogadores e mestres/narradores e, sem dúvida, é uma rica ferramenta para compor uma partida de RPG.

Sugestões de trilhas sonoras:

Vampire The Dark Ages: Vangelis, Cantos Gregorianos, Virgin Black, Arcana.

Mage The Ascension: Diary of Dreams, Autumn Tears, Alice in Chains, Tool, Lacrimas Profundere.

D&D: Trilha Sonora de O Senhor dos Anéis, Blind Guardian, Arcana, Midnight Syndicate Official D&D Soundtrack.

Shadowrun ou CyberPunk: Diary of Dreams, Raps variados, Trilha sonora de Vangelis para o filme Blade Runner, Poets of Fall, Umbra Et Imago, Imago Mortis.


Ass.: Soares Júnior.