Ele abre a porta do
quarto cautelosamente, revelando diante de seus olhos um ambiente escuro onde
apenas a luz da lua passa por entre as brechas das persianas, iluminando
parcamente o espaço a sua frente. Ele sabe que, em algum lugar, aquilo está à
espreita. Sorrateiro, agressivo, letal.
Jack entra devagar.
Sua mão segura firmemente sua navalha embebida pela energia Vac¹. Atravessa seus
pensamentos, como em um turbilhão, tudo que ele passou até aquele momento. A
conversa com Diane, os dois homens que a ameaçavam, a garota morta. Em algum
momento da noite, ele decidiu ir até o apartamento de sua amiga e saber como
ela estava, se seu irmão estava bem, se ele poderia ajudar.
Diane era uma boa
amiga. Eles se conheceram há quase um ano, logo quando ele chegou em Chicago, e
juntos faziam parte de um grupo que ajudava moradores de rua. Todas as noites
eles se reuniam em um pequeno ginásio do bairro para distribuir sopa, pão e
agasalhos para aqueles que nada possuíam. Diane era morena, estatura mediana,
cabelos longos e negros, com feições tipicamente mexicanas, sempre alegre e com
um belo sorriso no rosto. Mas Jack havia percebido que seu sorriso desaparecera
há alguns meses. Ela sempre evitava falar sobre o que a incomodava,
desconversava, até que, em uma noite de trabalho, ela foi chamada para
conversar fora do ginásio por dois homens estranhos. Ela saiu para conversar
com eles e nenhum dos três notou que Jack os seguiu e presenciou tudo: a
conversa em tom de ameaça ao irmão de Diane; a questão do dinheiro; até mesmo o
tapa, desferido por um deles, no rosto dela, que fez o sangue de Jack ferver
por um instante. “Covardes!”, pensou em silêncio enquanto os agressores se
afastavam de sua amiga em prantos.
Ela se recompôs e
voltou para o ginásio decidida a ir embora. Jack lhe ofereceu uma carona e ela
aceitou, apesar de hesitante. Subiram na moto e se foram. Ele podia sentir o
vento em seus longos cabelos castanhos, apenas um pouco cobertos por seu
capacete. Sua blusa e casaco pretos e sua calça jeans cortavam o vento a sua volta. A
moto era sua companheira há quase quatro anos, desde que ele decidiu que não
iria usufruir do dinheiro que cobria a lama que era a família Wayland, e muito
menos faria parte daquele jogo sujo. Ele seria apenas Jack Paradise, nada mais.
Tomaram umas cervejas
ao pé de seu apartamento, conversaram um pouco. Por alguns minutos, ela voltou
a sorrir, parecia ter esquecido do que a afligia, mas logo se despediu dele e
entrou no prédio. Parecia que a realidade havia a chamado de volta. Ele foi
embora, mas algo o fez regressar. Jack dirigiu sua moto por alguns quilômetros,
mas voltou.
Ele não sabia
explicar, não naquele momento, mas sentia algo o chamando para o apartamento
dela. Diane precisava de ajuda, ele sentia mesmo sem saber totalmente que
estava enxergando a Roda do Destino girar. Talvez ele pudesse fazer alguma
coisa. Por isso, voltou ao apartamento. Talvez apenas um pouco mais de uma boa
conversa e um ombro amigo já pudessem ajudar nesse momento de crise. Mas, nem
em seus sonhos, ou mesmo em seus piores pesadelos, ele poderia imaginar o que
iria acontecer.
Jack se aproximou da
porta trancada do prédio. Tocou a maçaneta e forçou um pouco apenas, mas foi o
suficiente para que a porta abrisse. “Estava aberta?” Ele subiu os três andares
que levavam até o apartamento de Diane. “3B. É esse.” Jack forçou novamente a
maçaneta e a fechadura cedeu. “Sou eu quem está abrindo?” Seus pensamentos
foram interrompidos pela visão de Diane sentada e chorando no sofá da sala.
“Seria algo com seu irmão?”.
“Diane? Você está
bem?” Ela o olhou em desespero. Parecia que ele não devia estar ali. “O que
você está fazendo aqui, Jack?”
“Eu senti... Não sei
explicar. Você não está bem. O que está acontecendo?”
“Vai embora, Jack.
Por favor!”. Mesmo com visível desespero, ela sussurrava. Foi quando ela se
levantou e, ao mesmo tempo, um barulho vindo dos quartos cortou o tênue
silêncio. “O que foi isso, Diane? Seu irmão está bem?”. Ele disse e já se
dirigiu para um dos quartos. “Não, Jack, por favor! Não entre aí!”. Diane
tentou impedir, mas Jack abriu a porta e o que ele viu gelou sua alma.
O quarto escondia
algo terrível, bestial, que sorvia o sangue de uma garota nua. Quinze anos
apenas, mas agora jazia sem vida. O sangue que jorrava forte de sua garganta, e
saciava a sede daquela Coisa sobre ela, era o último lampejo de vida que se
esvaía da traqueia da garota, triturada pelas presas daquele Ser. O irmão de
Diane não passava de uma sombra distorcida daquilo que um dia fora um garoto de
dezesseis anos, e agora deleitava-se com o sangue que escorria forte, banhando
a cama. Jack arremeteu-se sobre a criatura e puxou a garota para fora. Diane gritava,
enquanto seu irmão avançava em desespero para tentar proteger seu alimento, mas
Jack, mais ágil do que ele, conseguiu sair com a garota e o trancou no quarto.
Só não esperava que aquilo fosse acontecer.
O corte no pescoço
foi fundo, de uma ponta a outra, e abriu o sorriso da morte abaixo do queixo de
Jack. Com uma faca na mão, Diane chorava. “Me perdoe...”, ele escutou antes de
fechar os olhos, esperando a morte. Mas a morte não veio. Ele abriu os olhos e
viu que o Destino guardava mais coisas para ele. As suas cortinas não se
fechariam ali, não daquele jeito. Um instante pareceu muitas horas em suas
lembranças. “O hospital... a garota do balanço... um homem com uma túnica
branca. Mas isso deve ficar para depois. Agora preciso lidar com este momento. Preciso
levantar”.
Jack abriu os olhos
novamente e viu que um homem estava lá, ao seu lado, no corredor do apartamento
de Diane. “Teria sido ele que me salvou? Ele disse que se chama Hank... Ele
disse que Despertei... Disse que eu precisava dar ao irmão dela uma boa morte.”
“Ele está sofrendo,
Jack. E trazendo sofrimento. Você precisa libertá-lo.”
Diane voltou da sala
em prantos. “Me desculpe, Jack. Eu não sabia o que fazer.”. Ela parecia ignorar
a presença de Hank, simplesmente não olhava na direção dele. Jack sabia o que
tinha que fazer e, apesar de existirem muitas perguntas a serem respondidas,
ele precisava voltar ao quarto. A única coisa que Jack pediu a Hank foi que
deixasse Diane fora disso. No mesmo instante, com um leve toque no pescoço
dela, Hank a fez desfalecer em seus braços.
E assim Jack volta a
abrir a porta. E assim ele deve lidar com aquela besta que espreita do outro
lado dessa passagem. O agora é um lampejo na existência, apenas um barco à
deriva nas águas do Sat².
A navalha está pronta. Em algum lugar o monstro o espreita, e Jack consegue
sentir no ar as presas da criatura prontas para rasgar sua carne. Um segundo de
silêncio total e, como um trovão que rasga retumbante o som calmo da chuva, a
criatura salta em sua direção. Garras em riste. Presas sedentas de sangue. A
luz fátua do luar que passa pelas persianas da janela faz com que o monstro se
arremeta como uma imagem piscada de frames sobrepondo-se em um filme antigo.
Jack vê tudo devagar,
em câmera lenta, suas mãos estão no lugar certo. Seu corpo está na posição
certa. A Roda do Destino gira e as coisas sempre irão para seu devido lugar. A
navalha sibila no ar e o corte é profundo, preciso, no pescoço do monstro,
abrindo o sorriso da morte abaixo de seu queixo. Bebemos o mel e o fel de nossas
escolhas e o Destino sempre cobra o seu preço.
A criatura cai.
Aquilo que um dia foi o irmão de Diane está inerte, olhando para Jack. As gotas
de sangue que caem da navalha misturam-se ao sangue que escorre sem força da
garganta do monstro e banha todo o quarto.
Jack afaga os cabelos
da criatura que olha para ele incrédula, mas o seu olhar é uma súplica pelo
fim. A navalha corta o ar novamente e completa o sorriso da morte no pescoço da
besta. Os ossos do pescoço cedem ao frio metal cortante embebida pelo Vac da arma de Jack. A cabeça se separa do
corpo maldito que imediatamente se enrijece tragado pelo rigor mortis que há muito deveria ter tomado aquele
corpo. Silêncio.
Hank está lá fora na
sala com Diane deitada no sofá. Jack vai até ele e arremessa a cabeça da besta
aos seus pés. “Você me deve respostas.”, ele diz, fitando o homem alto, loiro,
de cabelos na altura dos ombros, que mais parece um dos muitos motoqueiros que
ele já encontrou na estrada nestes anos em que ele viaja pelos Estados Unidos,
buscando corrigir um Karma que não é só dele. Mas este homem é diferente. Mesmo
estando com uma jaqueta de couro preta sobre uma blusa de uma banda country qualquer e uma calça jeans surrada, existe algo a mais nele. Jack
consegue sentir vibrando no ar.
“Pegue a garota.
Temos muito que conversar”, Hank diz, saindo pela porta que leva ao corredor do
prédio.
“Espero
que você entenda. Espero que me perdoe. Não existia outra forma”, Jack diz para
Diane, enquanto ergue a jovem amiga desacordada em seus braços. O corredor que
conduz até a escada por onde Hank acabou de descer se agiganta diante dele. A
Roda do Destino girou, não existe mais volta. Ele sai pela porta.
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Glossário:
¹Vac - Energia primordial.
Referente à Esfera Primórdio.
²Sat - Tempo
Muito massa, Soares! Fico feliz que meu personagem tenha rendido um conto tão bem escrito. Foram situações tensas na nossa mesa... Uma sugestão, que tal inserir na edição do post uma foto dele e quem sabe do Hank? Ficaria massa para quem acompanhar imergir ainda mais na trama da nossa narrativa. No mais, já espero os contos introdutórios da Eillen, Deena e Gregory!
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