25 de fevereiro de 2016

CONTO 2 - Mago: A Ascensão. Crônica: Lembranças do amanhã.

O vento sopra agitando as areias e traz o gélido hálito noturno do deserto para dentro do quarto. Ela está deitada ao seu lado, e sua beleza é como uma miragem vinda de um mundo onde os sonhos podem ser tocados.  Sua respiração é perene e seus braços envolvem os tecidos sobre o colchão e o apertam forte junto ao rosto, buscando reter os últimos aromas do ninho de amor que foi aquela cama. Os véus da sacada balançam acalantados pelo sopro do vento frio da noite.
Ela dorme. Incauta.
Yamanu está sentado na cadeira ao lado da cama, apenas olhando para sua amada. “Falta pouco para que eles entrem por aquela porta. Posso sentir.”. Ele pensa enquanto observa os véus que separam o quarto da varanda em sua dança flutuante, deslizando pelo ambiente em uma miríade de cores e transparências. Mais cedo eles se encontraram neste mesmo quarto e se amaram como se fosse a última vez, como se não houvesse nada que pudesse evitar que o tempo os distanciasse, mas que aquele último momento iria ficar marcado em suas almas por toda a eternidade.
Ele sabe que o espírito de sua amada é antigo, mas ela não. Ela vive apenas essa vida, respira cada momento como se fosse o derradeiro e ao mesmo tempo o primeiro, mas pelo menos é feliz naquele momento de maneira plena, sem saber que havia sido escolhida em outra vida. Em uma que foi vivida tão plenamente quanto essa. E foi amada tão intensamente como agora. Ela dorme agora como seu espírito que ainda adormece.
Por dias e noites ele perambulou, por este e outros mundos, buscando entender o destino de sua amada, desvelar a vontade dos Deuses, e não conseguiu encontrar nada além do deserto com suas areias escaldantes durante o dia e gélidas durante a noite.  Um deserto que se estende pelos seus sonhos e cobre suas esperanças. Como pode um ser enganar Anúbis1 durante tanto tempo? Como ainda não foi tragada e devorada por Ammut2?
Yamanu não encontrou respostas, nem neste mundo, nem em outro. Nem em seus sonhos ou pesadelos. Não é digno de que os Deuses lhe respondam, pelo menos não ainda. Ele se lembra desse mesmo momento, perdido nas areias do tempo, em algum lugar do Egito antigo, há mais de mil anos.
Mil anos se passaram e seu espírito despertou novamente, ouvindo o chamado de seu amor que cruzou gigantescos desertos de solidão para encarnar outra vez. Agora seu nome era Hasan, mas ao vê-la, caminhando pelas feiras movimentadas, carregando uma cesta de tecidos, seu Avatar sussurrou em seu ouvido: Yamanu. Este seria seu nome daquele dia em diante, como fora antes quando se encontraram no cálido deserto, entre as tendas da caravana de mercadores. Seu nome em uma época esquecida, perdida entre o sonho e a realidade.
Ele se levanta e caminha até a sacada. Vestindo apenas uma calça branca e sandálias de couro, seu corpo negro brilha ao toque da luz tênue de uma lua minguante. Até mesmo a lua fechou-se para não incomodar os amantes e para não ser testemunha do que está por vir. Sua amada vira-se de lado na cama e fita o colosso de ébano parado na sacada, olhando para o deserto ao longe. A pequena cidade lá fora, com suas construções de pedras erguidas pelos homens, está silenciosa. “O que houve, meu amor? Por que não volta para a cama?”, ela pergunta e sua voz soa como um ronronar, enchendo o quarto e o espírito de Yamanu. Ele a olha por instantes. “Porque preciso estar pronto para quando eles entrarem por aquela porta e tentarem levar você de mim para sempre.”. Seu pensamento não ousa sair como palavras pela sua boca, amaldiçoando aquele momento que deve ter a benção de Hator3.
Ao invés disso, ele encara seus negros olhos. “Levante-se, meu amor, precisamos ir.”. As palavras saem de sua boca, mas sua mente divide-se entre o quarto e as ruas da cidade. Sua consciência viaja por todos os cantos entre eles e o que está a sua captura pelas ruas. Durante dias ele evitou a presença de seus perseguidores, há muito vem tentando se esquivar de suas garras, mas agora não havia mais como fugir, nem para onde ir, pois estavam cercados. Era apenas uma questão de tempo. A porta diante deles iria se abrir e libertar para dentro do quarto os enviados de Jahannum4, maculando o sagrado ninho de amor dos dois.
Ela se veste devagar, suas roupas deslizam pelo corpo macio e cálido, mesmo com o vento noturno a banhar sua pele aquecida pela vontade de Yamanu, que não permite que seu corpo esfrie junto com a noite que avança agourenta. As pedras, aos olhos adormecidos, apenas negras opalas colocadas na entrada do quarto e nas janelas, denunciam o perigo que se aproxima. Ele saca sua cimitarra e se interpõe à porta. Sua lâmina reluz ao ser tocada pela escassa luz da lua minguante que hesita em testemunhar seus destinos. Ela se assusta e olha para ele como em uma súplica para que o momento pare diante de seus olhos e que o tempo possa voltar para o instante em que se amavam, mas aquele momento está eternamente perdido, em meio ao turbilhão de Isfret5.
A porta abre-se de súbito. Entram cinco homens, trajando turbantes e túnicas negras como o reflexo de suas almas, espadas em punho em direção aos amantes. Yamanu faz sua cimitarra dançar e desfila como o vento entre seus agressores. Os cortes fazem com que os inimigos rodopiem, acompanhando a dança da espada que viaja precisa por seus corpos e raspa caprichosamente pelas lâminas que buscam em vão defendê-los da morte certa, fazendo do som de tilintar de metais a melodia que os acompanhará para o esquecimento. O sangue jorra dos corpos e lava as cortinas, que dançam levadas pelo vento.
Tudo parece um segundo. Um momento de transe que é despertado pelo grito que enche o quarto.
Yamanu olha para trás enquanto os cincos homens tombam com suas vidas ceifadas pelo fio de sua cimitarra. Diante de seus olhos incrédulos está sua amada, carregada pelos braços daquele que habita seus pesadelos. O arauto de seu desespero. O enviado daquela que ele não pode sequer pronunciar o nome sem que sua alma estremeça de angústia e incerteza. Ela o enviou para tomá-la de mim novamente, como uma repetição de um pesadelo que não cessa. Diante dele está aquele homem, magro, muito alto, albino como a neve que nunca tocou o deserto, quase em afronta aos Deuses que o esqueceram. Usa calças e botas pretas. Seu tórax desnudo é adornado por uma pintura vermelha como sangue que forma runas profanas, presentes também em sua fronte. Em sua cabeça, nenhum sinal de cabelo.
O homem ergue nos braços a amada de Yamanu. Ela esperneia inutilmente, com a mão estendida em súplica. “Socorro! Não deixe que me levem, por favor! Eu te amo, meu amor! Eu te amo!”, grita a plenos pulmões. “Não!”. O grito dele, em resposta, ecoa na noite. O maldito homem olha para ele e salta da sacada.
Yamanu corre na direção deles. Suas lágrimas misturam-se às gotas de sangue que caem de sua cimitarra e ao rubro néctar que banhou as cortinas, expelido pelas feridas abertas dos homens tombados no quarto. “Será tarde demais? Por favor, não me deixe de novo...”. Ele pensa, fitando a noite vazia, e grita em desespero. Um grito que ultrapassa as areias do tempo e faz com que Gregory acorde.

***

Gregory está só no laboratório do museu de Chicago. A luz de sua luminária é a única que ilumina o ambiente. Sua mesa está coberta por livros sobre escrita hieroglífica e sobre o Egito antigo, onde ele, um jovem estudante, doutorando em Egiptologia, busca respostas. Ele sabe que este sonho que se repete há várias noites é um sinal. Uma mensagem do seu Avatar. “Mas o que quer me dizer?”, Gregory pensa, mas não existe resposta ainda.
Mais adiante, sobre a principal mesa de pesquisa, jaz a múmia, recém-descoberta em uma expedição arqueológica, que foi trazida para Chicago e deixada sob os cuidados de seu professor orientador, e maior autoridade em Egiptologia dos Estados Unidos, Dr. Yuri Gardner. Uma intrigante múmia trespassada por uma estaca ritualística diretamente em seu coração. Uma estaca, coberta de runas, que tem tirado o sono de Gregory e de sua colega de estudos, Marcie.
 “Nossa, já passam da meia noite! Preciso descansar.”, pensa, enquanto lança um último olhar para a múmia em seu moribundo sono, banhada parcamente pela luz de sua luminária. Ele apaga a luz e caminha pelo laboratório escuro, indo em direção à porta de saída, tomado pelas incertezas de uma jornada que está apenas no seu início. Uma jornada pelas areias do tempo, seguindo pegadas trilhadas há muito pelo seu espírito.

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Glossário:
  
1Anúbis - Deus Egípcio dos Mortos.

2Ammut - Divindade egípcia que devorava os espíritos daqueles que mentissem em seu julgamento final.

3Hator – Divindade Egípcia que personifica o amor e a beleza.

4Jahannum - Como os Ahl-i-Batin chamam o Inferno.


5Isfret - Forma como os Ahl-i-Batin se referem ao Caos.

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