O vento sopra agitando as areias e traz o gélido
hálito noturno do deserto para dentro do quarto. Ela está deitada ao seu lado, e sua beleza é como uma miragem vinda de um mundo onde os sonhos podem ser
tocados. Sua respiração é perene e seus braços envolvem os tecidos sobre
o colchão e o apertam forte junto ao rosto, buscando reter os últimos aromas do
ninho de amor que foi aquela cama. Os véus da sacada balançam acalantados pelo
sopro do vento frio da noite.
Ela dorme. Incauta.
Yamanu está sentado na cadeira ao lado da cama,
apenas olhando para sua amada. “Falta pouco para que eles entrem por aquela
porta. Posso sentir.”. Ele pensa enquanto observa os véus que separam o quarto
da varanda em sua dança flutuante, deslizando pelo ambiente em uma miríade de
cores e transparências. Mais cedo eles se encontraram neste mesmo quarto e se
amaram como se fosse a última vez, como se não houvesse nada que pudesse evitar
que o tempo os distanciasse, mas que aquele último momento iria ficar marcado
em suas almas por toda a eternidade.
Ele sabe que o espírito de sua amada é antigo, mas
ela não. Ela vive apenas essa vida, respira cada momento como se fosse o
derradeiro e ao mesmo tempo o primeiro, mas pelo menos é feliz naquele momento
de maneira plena, sem saber que havia sido escolhida em outra vida. Em uma que
foi vivida tão plenamente quanto essa. E foi amada tão intensamente como agora.
Ela dorme agora como seu espírito que ainda adormece.
Por dias e noites ele perambulou, por este e outros
mundos, buscando entender o destino de sua amada, desvelar a vontade dos
Deuses, e não conseguiu encontrar nada além do deserto com suas areias
escaldantes durante o dia e gélidas durante a noite. Um deserto que se
estende pelos seus sonhos e cobre suas esperanças. Como pode um ser enganar Anúbis1 durante tanto tempo?
Como ainda não foi tragada e devorada por Ammut2?
Yamanu não encontrou respostas, nem neste mundo,
nem em outro. Nem em seus sonhos ou pesadelos. Não é digno de que os Deuses lhe
respondam, pelo menos não ainda. Ele se lembra desse mesmo momento, perdido nas
areias do tempo, em algum lugar do Egito antigo, há mais de mil anos.
Mil anos se passaram e seu espírito despertou
novamente, ouvindo o chamado de seu amor que cruzou gigantescos desertos de
solidão para encarnar outra vez. Agora seu nome era Hasan, mas ao vê-la,
caminhando pelas feiras movimentadas, carregando uma cesta de tecidos, seu
Avatar sussurrou em seu ouvido: Yamanu. Este seria seu nome daquele dia em
diante, como fora antes quando se encontraram no cálido deserto, entre as
tendas da caravana de mercadores. Seu nome em uma época esquecida, perdida
entre o sonho e a realidade.
Ele se levanta e caminha até a sacada. Vestindo
apenas uma calça branca e sandálias de couro, seu corpo negro brilha ao toque
da luz tênue de uma lua minguante. Até mesmo a lua fechou-se para não incomodar
os amantes e para não ser testemunha do que está por vir. Sua amada vira-se de
lado na cama e fita o colosso de ébano parado na sacada, olhando para o deserto
ao longe. A pequena cidade lá fora, com suas construções de pedras erguidas
pelos homens, está silenciosa. “O que houve, meu amor? Por que não volta para a
cama?”, ela pergunta e sua voz soa como um ronronar, enchendo o quarto e o
espírito de Yamanu. Ele a olha por instantes. “Porque preciso estar pronto para
quando eles entrarem por aquela porta e tentarem levar você de mim para
sempre.”. Seu pensamento não ousa sair como palavras pela sua boca,
amaldiçoando aquele momento que deve ter a benção de Hator3.
Ao invés disso, ele encara seus negros olhos.
“Levante-se, meu amor, precisamos ir.”. As palavras saem de sua boca, mas sua
mente divide-se entre o quarto e as ruas da cidade. Sua consciência viaja por
todos os cantos entre eles e o que está a sua captura pelas ruas. Durante dias
ele evitou a presença de seus perseguidores, há muito vem tentando se esquivar
de suas garras, mas agora não havia mais como fugir, nem para onde ir, pois
estavam cercados. Era apenas uma questão de tempo. A porta diante deles iria se
abrir e libertar para dentro do quarto os enviados de Jahannum4, maculando o sagrado ninho de amor dos dois.
Ela se veste devagar, suas roupas deslizam pelo
corpo macio e cálido, mesmo com o vento noturno a banhar sua pele aquecida pela
vontade de Yamanu, que não permite que seu corpo esfrie junto com a noite que
avança agourenta. As pedras, aos olhos adormecidos, apenas negras opalas
colocadas na entrada do quarto e nas janelas, denunciam o perigo que se
aproxima. Ele saca sua cimitarra e se interpõe à porta. Sua lâmina reluz ao ser
tocada pela escassa luz da lua minguante que hesita em testemunhar seus
destinos. Ela se assusta e olha para ele como em uma súplica para que o momento
pare diante de seus olhos e que o tempo possa voltar para o instante em que se
amavam, mas aquele momento está eternamente perdido, em meio ao turbilhão de Isfret5.
A porta abre-se de súbito. Entram cinco homens,
trajando turbantes e túnicas negras como o reflexo de suas almas, espadas em
punho em direção aos amantes. Yamanu faz sua cimitarra dançar e desfila como o
vento entre seus agressores. Os cortes fazem com que os inimigos rodopiem,
acompanhando a dança da espada que viaja precisa por seus corpos e raspa
caprichosamente pelas lâminas que buscam em vão defendê-los da morte certa,
fazendo do som de tilintar de metais a melodia que os acompanhará para o
esquecimento. O sangue jorra dos corpos e lava as cortinas, que dançam levadas
pelo vento.
Tudo parece um segundo. Um momento de transe que é
despertado pelo grito que enche o quarto.
Yamanu olha para trás enquanto os cincos homens
tombam com suas vidas ceifadas pelo fio de sua cimitarra. Diante de seus olhos
incrédulos está sua amada, carregada pelos braços daquele que habita seus
pesadelos. O arauto de seu desespero. O enviado daquela que ele não pode sequer
pronunciar o nome sem que sua alma estremeça de angústia e incerteza. Ela o
enviou para tomá-la de mim novamente, como uma repetição de um pesadelo que não
cessa. Diante dele está aquele homem, magro, muito alto, albino como a neve que
nunca tocou o deserto, quase em afronta aos Deuses que o esqueceram. Usa calças
e botas pretas. Seu tórax desnudo é adornado por uma pintura vermelha como
sangue que forma runas profanas, presentes também em sua fronte. Em sua cabeça,
nenhum sinal de cabelo.
O homem ergue nos braços a amada de Yamanu. Ela
esperneia inutilmente, com a mão estendida em súplica. “Socorro! Não deixe que
me levem, por favor! Eu te amo, meu amor! Eu te amo!”, grita a plenos pulmões.
“Não!”. O grito dele, em resposta, ecoa na noite. O maldito homem olha para ele
e salta da sacada.
Yamanu corre na direção deles. Suas lágrimas
misturam-se às gotas de sangue que caem de sua cimitarra e ao rubro néctar que
banhou as cortinas, expelido pelas feridas abertas dos homens tombados no
quarto. “Será tarde demais? Por favor, não me deixe de novo...”. Ele pensa,
fitando a noite vazia, e grita em desespero. Um grito que ultrapassa as areias
do tempo e faz com que Gregory acorde.
***
Gregory está só no laboratório do museu de Chicago.
A luz de sua luminária é a única que ilumina o ambiente. Sua mesa está coberta
por livros sobre escrita hieroglífica e sobre o Egito antigo, onde ele, um
jovem estudante, doutorando em Egiptologia, busca respostas. Ele sabe que este
sonho que se repete há várias noites é um sinal. Uma mensagem do seu Avatar.
“Mas o que quer me dizer?”, Gregory pensa, mas não existe resposta ainda.
Mais adiante, sobre a principal mesa de pesquisa,
jaz a múmia, recém-descoberta em uma expedição arqueológica, que foi trazida
para Chicago e deixada sob os cuidados de seu professor orientador, e maior
autoridade em Egiptologia dos Estados Unidos, Dr. Yuri Gardner. Uma intrigante
múmia trespassada por uma estaca ritualística diretamente em seu coração. Uma
estaca, coberta de runas, que tem tirado o sono de Gregory e de sua colega de
estudos, Marcie.
“Nossa, já passam da meia noite! Preciso descansar.”, pensa, enquanto lança um último olhar para a
múmia em seu moribundo sono, banhada parcamente pela luz de sua luminária. Ele
apaga a luz e caminha pelo laboratório escuro, indo em direção à porta de
saída, tomado pelas incertezas de uma jornada que está apenas no seu início.
Uma jornada pelas areias do tempo, seguindo pegadas trilhadas há muito pelo seu
espírito.
_______________________________________________
Glossário:
1Anúbis - Deus Egípcio dos Mortos.
2Ammut - Divindade egípcia que devorava os
espíritos daqueles que mentissem em seu julgamento final.
3Hator – Divindade Egípcia que personifica o
amor e a beleza.
4Jahannum - Como os Ahl-i-Batin chamam o
Inferno.
5Isfret - Forma como os Ahl-i-Batin se referem
ao Caos.
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